18 abril, 2012

Testamento

Encontrei este texto em seu quarto. Estava sobre a escrivaninha. Não tivemos mais conhecimento de seu paradeiro a partir de então. Vi que não levou nada além das próprias roupas do corpo, deixando até mesmo documentos.
Transcrevo a seguir o texto (com todas suas falhas de concordância e gramatica), na esperança de que alguem entenda o que ele quis dizer.

"Meu cérebro tem criado fantasmas, espectros nos quais me força a crer que são solidificados e capacitados para realmente intervir, por vontade própria, na realidade. Na minha realidade e no meu destino. Podem interferir nas minhas esperanças. E é justamente a dúvida, a dúvida do racionalismo, que me levou ao ateísmo, que prefiro me enganar de que é um agnosticismo (dado que nada sabemos da verdade, não temos informações suficientes, e somos incapacitados para tais reflexões), a dúvida que Einstein teve da linearidade do espaço e do tempo, apesar de parecer indubitável a você ao ver o espaço na sua frente, reto. Tudo isso me guiou ao agnosticismo total. Duvide de tudo.
Se mesmo entre filósofos de uma mesma escola há divergências entre sí na determinação da realidade, quem sou eu para assumir verdadeiras em minha visão particular eventos cotidianos que nunca questionei?
E se algo me é importante prefiro tomar todas as ações que me assegurem a segurança daquilo. Pensamentos que surgem da dúvida varrem todas minhas outras reflexões. E se esta minha ação interferir no rumo que isto leva, intervir no meu futuro, apesar de nada estar relacionado diretamente? No máximo no bater de asas de uma borboleta? Como posso voltar a crer naquilo que vejo se a simples colisão de átomos que não consigo ver pode me dar um cancêr? No creo en brujas, pero que las hay las hay.
Como podem querer que eu creia em algo assim? Estou a afastar me demais do método científico. Somente creia naquilo que você pode provar. Mas como provar algo, se os nossos próprios métodos se baseiam em concepções da limitada racionalidade humana? O nosso método científico é um instrumento auto-referente. Ele sempre se mostrará em concordância consigo mesmo. Poderei então provar pelo método científico que o Sol irá sempre surgir em um novo dia apenas porque até agora ele surgiu todos os dias anteriores sem exceção? E a super-nova e sua consequente morte estelar? Será que meus métodos apenas distorcem-se para se mostrarem sempre corretos entre sí, mas não como a verdade está? Inclusive, a lógica simples do humano serve para todos os casos? Veja, 1+1 será sempre 2? Pareceria uma pergunta tola, mas pegue 1 metro e some mais 1 metro. Isso dará 2 metros. Mas apenas nas nossas condições atuais. E próximo a 3.10^8m/s? é como a água. Somente a altura do mar ela evapora a 100ºC.
No fim devo me basear na minha realidade, a qual acredito e é meu presente. Afinal, se uma árvore cair no meio da floresta, mas não houver ninguem para escutá-la cair, ela então não fez som.
Mas não se pode ser egocêntrico de tal modo. O pescador, apesar de crer que para pegar um peixe só depende de sua vara, pode morrer de inanição por alguma mudança climática distante que ele ignora. Do mesmo modo que o natural aumento da temperatura dos oceanos matou o grandioso e poderoso megalodon. Algo que ele simplesmente não tinha consciência. Então o homem em sua poderosa racionalidade e lógica pode morrer ou ser estraçalhado em sua frágil esperança por algo que está fora do seu alcance de entendimento. Sem ser visto.
Então é a sina do homem aceitar suas limitações e viver com elas? Ou quebramos barreiras como livros de auto-ajuda e animes nos ensinam? Onde está a loucura dos loucos se não podemos provar que o que eles veêm não existem realmente? Diante de todas as indagações, provou-se de que o que desconheciam, e julgavam impossível, na verdade estava lá. Desde sempre. Que os átomos nos quais eles não creiam na verdade sempre compôs eles e o mundo.
Tenho medo que minha amada me julgue um maluco. Mas como ela mo poderia amar se ela não conhecesse este meu lado? Amanhã, se este texto vingar sobre minha sonolência e ânsia mostrar-la-ei. Vou assumir que ela sabe o que é bom para ela e pra realidade dela. Se ela quiser ficar longe do perigo das indagações deste louco, ela saberá o que é melhor a realidade dela. A felicidade e segurança dela é minha importância.

Tudo o que sei é que nada sei.
Cogito ergo sum"

Tenho começado a questionar o meu cotidiano desde então...

13 janeiro, 2012

Objetivos

Estou desconfiado e enfadado. Poderia até dizer que o sou, de tanto tempo que estou nesse perfil.
Muitas vezes afixo o olhar em algo bonito, que desperta um desejo de tê-lo. E então, como não o tenho, e como outras pessoas o tem, e não se dão conta de que ter esse objeto é passageiro, me pego maldizendo tal desejo. Me vem o pensamento de destruição dessas coisas belas, como um protesto a alguém. Não é direcionado ao Deus que criou tais coisas belas, dado que não creio nessa história. É um protesto a mim mesmo.

(Nas ruas, atearia fogo em grandes árvores [que demoraram tempos pra conseguir crescer, tiveram sorte o suficiente pra conseguirem água para ficarem grandes e fortes e se estabilizarem, e a de ninguém pisar em cima quando ainda pequenas]; com meu soco inglês daria socos em alguém a noite por motivo nenhum, um boy, ou drogado; quebraria a janela do hospital abandonado e procuraria algo para roubar)

E então penso, se por acaso possuísse o tal objeto de desejo...me daria por satisfeito? E seria feliz, puramente feliz com aquele objeto. Pois não -concluo- iria procurar outras coisas. Eu teria aquilo, seria parcialmente feliz, mas de desconfiado iria olhar aquilo e pensar "Deve ter coisas mais. Isto é apenas passageiro"

18 novembro, 2011

Preso

“-Você não pode emagrecer mais. Para seu corpo, apesar de classificado como obeso na cartilha antiga, seu peso está bom. Na cartilha nova seu peso, sua altura e seu organismo estão de acordo. Se você emagrecer mais pode correr o risco de doenças, e perder uns anos de vida nisso.”

Era isso. Ou ele chegava a uma idade normal e tinha menos prazeres na vida, ou emagrecia, ficava nos moldes, corria o risco de viver bem menos, mas teria os divertimentos da sua geração.

Toda a sociedade o classificava como gordo. E dava pra ver nos olhos de espanto, ou de chacota dos passantes a alcunha de gordinho. Nenhuma garota já o olhou seriamente. Tampouco tinha vivenciado um olhar de sedução, ou de desejo. Só viu em novelas, ou em filmes com musas.

Quando decidiu emagrecer contou o desejo pra sua mãe. Foi quando ela indagou o porquê de estar pedindo pra comprar grãos de soja torrado e granola. Como sua mãe era protetora e insegura, e deu muito comida pra ele quando menor, ela achou que era mais garantido se emagrecer mantendo um controle, então levou-o a um médico pra monitorá-lo e dar os moldes.

“Decidi por fim, agora aos 15 anos que queria emagrecer, porque vejo meus amigos magros, ou até mesmo medianos, se divertirem. Tipo baladas e dançar. Sair com garotas e poder toca-las, acariciar-se nelas. Nunca toquei nenhuma, e nenhuma me tocou por mais tempo que o suficiente para me chamar a atenção e me fazer uma pergunta referente a aula da escola. Nunca senti um acariciar feminino. No máximo minha mãe, ou minhas tias. Mas elas são velhas. Não sinto o frescor da juventude como quando esbarro sem querer numa conhecida de classe. É meio como pêssego, como fala naquelas propagandas de creme hidratante. O momento decisivo foi quando meus amigos decidiram sair entre si e seus flertes, e falaram que praticamente não tinha espaço pra mim, ou que eu ia atrapalhar o andamento. Me senti o único a ser sozinho.
E o momento de decisão mesmo foi quando eu entrei no banho, estava uma água muito quente, e senti como era gostoso. Era como se eu estivesse sendo envolvido por alguém. Imaginei uma garota, delicada, sincera, bonita. Não como uma estrela pop, mas como uma singela garota. Meiga, ingênua. Queria aquilo pra mim, e só poderia viver isso na imaginação? Apenas quando estivesse no banho? Cogitei demorar mais nos banhos, só pra ficar sentindo aquele calor me envolvendo. Mas era um chuveiro, ficaria pobre em um mês. Se ao menos tivesse uma banheira ao invés de um chuveiro...
Foi então que notei o que estava perdendo! Ir em uma balada. Achar uma garota bonita. Me aproximar dela, ela me olhar, sorrir, e passar a dançar voltada pra mim, sorrindo. Sempre. E então poder começar uma relação com ela. Ir a um cinema, me divertir com ela. Ajudá-la com seus problemas. Ir comprar coisas com ela, ou ficar olhando as coisas com ela. Participar com ela dos divertimentos dos meus amigos finalmente. Quanto eu estava perdendo? Decidi que batalharia pra vivenciar aquilo e não morrer sem saber o prazer.

Começou tudo errado quando fui ao médico. O médico disse que eu não poderia emagrecer mais, pois saiu uma nova cartilha falando o quê era saudável. Ser magro não era mais necessariamente ser saudável. A nova cartilha dizia que não eram só altura e peso que contavam agora, mas que também o biótipo do corpo.
E que se emagrecesse poderia correr riscos de anemia, hipoglicemia, etc, que meu corpo ficaria mais vulnerável a invasões, de vírus e tipos, etc. além de diminuir meus anos de vida.

Então é isso o que a vida me reservou? Além de ser motivo de chacota, e ter de batalhar para conseguir os prazeres que os outros garotos conseguem tão facilmente e aproveitam tanto, se eu conseguir tal intento eu sou castigado com menos vida?! Onde está a justiça?!
Porquê eu tinha de ser assim? Porque o mundo tinha de ser assim?! Eu já tinha sofrido o bastante com toda a tiração de sarro, e todas as restrições, e humilhações, e achava eu que merecia mais que isso! Ao invés dos meus amigos que sempre tiveram uma vida tranqüila! E que até se divertiam humilhando me! Sempre magros, sempre convidados pra festas, sempre bonitos, sempre iam em festas. Sempre podiam sair com uma garota! Tinham por vezes até duas garotas querendo ficar com um deles! E eu com nada?! Só podia voltar pra casa! Ficar vendo novela com meus pais?! Depois reler Harry Potter e dormir!
Eles têm tudo o quê eu queria, e eu tenho nada! O quê ganhei? Eu merecia menos? O quê eles fizeram pra merecer?! 
!!
.!.!
.......
...............

Inerte...
Preso em uma jaula...

Ou o prazer simples e morte mais cedo. Ou continuar a chacota, e ser um pária social excluído do prazer.”

O garoto passava pelo dilema primário do suicida. Ou continua sofrendo, ou pode terminar mais rapidamente tudo.

21 outubro, 2011

Miséria

Você queria ser um herói, né? Você acha que está se encaminhando em direção a isso. Mas vamos lá, encare. Vai facilitar às coisas pra você. Você vai ver a sí mesmo sem tanta pressão. Sem tanta auto crítica. Sem tanto pesar. Você já fez atos idiotas, burros, vergonhosos. Você é um humano. Não o humano da literatura, ou como nós humanos falamos que são os humanos. Idealizados. Você é um humano como todos nós. Você pensa em sí mesmo. Você não é bondoso ou perfeitamente racional e honrado. Você é um humano como todos os outros que você vê escorregando na rua, se humilhando, roubando misérias pra se drogar. Um humano animal como todos os outros animais.
Você pode tentar pensar, compensando, que todos os outros já fizeram burradas também, e que se você não está acima deles, pelo menos está igual. Mas isso não é sobre eles. É sobre você. Sobre aceitar a realidade sua, não deles. Acertar as contas entre você e seu ideal. Não aceitar o ideal de outras pessoas. Se aceitar. Vamos lá, você nunca será perfeito. Você já errou. E porque você não tinha conhecimento suficiente. Ou porque você é humano, tem desejos, e o mundo exige que aja em tempo. Ou seja, muitas vezes sem planejar. Mas isso também é arranjar uma desculpa. Colocar a culpa no mundo. Que se não fosse pelo mundo e seu tempo você seria perfeito. Você não é. Como humanos ganhamos uma grande habilidade de cérebro privilegiado. Mas isso não significa que com o que temos podemos chegar a tudo o que almejamos. Você nem lembra o quê você comeu no almoço de ontem.
E outra coisa, você não é o herói do mundo. Você não faz a diferença. O que você fez hoje? Almoçou. Conversou sobre um assunto facilmente esquecível. Comprou arroz e feijão. Talvez até um humilde chocolate para sí. Vê? Sua vida não ajuda ninguem. Não muda o mundo. Se você não existisse seria igual. Um cara solitário estaria feliz com sua namorada. Sua namorada não sentiria sua falta, pois teria construído sua vida sem você, que ocupa uma fração pequena na vida dela.

Eu quero me anular.
Esquecer a vida com álcool.
Preencher a minha miséria (a nossa miséria) com o corpo de uma mulher.